sexta-feira, 2 de agosto de 2013

# Pouco razoável

O excesso de ficção me adoece a razão
E assim dementado das formas sérias,
Sou incapaz de andar em linha reta,
Fico inclinado para as disfunções
E me identifico com outros
Incompetentes para o olhar razoável.

Quando saio dessa roda, encontrando
A vida dos razoáveis
Lhes pergunto: "Como vai a vida?"
Mas nada dizem, por me tomarem por infeliz
Dizem que sofro dos prazeres da inconsequência.


Ordenadamente sou desordem,
E junto da Incontingência,
Somos sabidos de esquecimento,
Gotejadamente infinitos de ignorância.

# Cridos

Destomado de coisas razoáveis
me dediquei aos seguintes pensamentos:

O que nos parece agradável aos olhos
e seguro ao espírito é o reconhecimento 
parcial das nossas forças ordenadas.

Compreender o encaminhamento dos fluxos
nos parece dominar pelo Saber
a chave de sua sequencialidade.

Agimos pela indução de uma lógica
construída no desgastados registro das
constatações historicizadas das forças,
a noção ou segurança de que dominamos
os acontecimentos pela sequencialidade de um saber.

Assim nos permitindo somos cridos
como dominantes do tempo fixando-o
no tripídico da temporalidade linear.

Nomeamos o fluxo contínuo da vida reduzindo
seus volumes e espessuras a planitude
de uma visão rasa e segura.

E conclui, mesmo que provisoriamente:

Me parece que
Vivemos dirigidos pelo medo de viver.

# A prévia do Amor

Me abrir e te amar
Me apaixonar também por toda possibilidade de sofrer
Seus olhos me fugiam naquilo que me diziam:
Há amor e dor, prazer e engano
E isso ainda vai lhe custar muitos anos.

Você veio e pouco ficou, sabendo que logo se iria
Eu te recebi e quarto lhe fiz, em você eu me sabia
Mas eu sabia apenas aquilo que desejava ver:
Não há vida sem morte, nem felicidade sem angústia.

Você é a prévia de toda minha alegria
A dor transtornada em um caminho de cor e luz
Enredo para toda banda de carnaval.


Seus gestos me fugiam naquilo que me diziam:
Há amor e dor, prazer e engano
E isso ainda vai lhe custar muitos anos.

Mas eu me dirigia naquilo que desejava ser:
Dançar até que a dor se entorne em alegrias
Cantar até que o meu sorriso se estenda sobre você
Como os abraços abertos, com peito aberto e de olhos fechados
Me lanço na imagem invisível que fiz dos seus braços.

Sua parte, sua inteireza nos beijos e no olhar profundo
Nos longos cílios, no cabelo crespo, na pele quente
Na meia-luz do quarto onde nos amamos escondidos
Sem medo de sermos encontrados,
Nem mesmo por nós mesmos.

Seu calor me fez te amar com tanta destreza,
E talvez esse tenha sido meu erro,
Não saber que você me queria tal qual como eu,
Que desamando a mim mesmo te quis.

Você nunca foi um sonho, mas isso eu ainda não te contei.
Dorme outra vez, e se entrelaçada comigo, se perca em mim
Pra depois de milênios acorda sua alma com a voz dessa canção
Pois quando acordados nos acordes do silêncio, olhamos pelos poros.

Nas prévias do nosso amor há dor, angústia e prazer.
E nisso a felicidade é o espaço entre eu, você e o Tudo.


Não há como te amar de outra forma.