terça-feira, 17 de maio de 2016

# Sorrir junto



Durante um longo tempo riram juntos.
Até que um se escorou no corpo do outro.
Até que os olhares se desencontraram.
Até que rir se tornou um motivo em si
                   - aparentemente interminável.

Gargalharam até perder o ar e emudeceram.

Respiraram junto assim como a pouco riam,
sincronizados, pouco a pouco, foram desindo...
calaram-se, um depois o outro; ofegantes e
              certos de que nada precisava ser dito.

Perceberam-se, então, habitados no tempo com
uma qualidade de integridade tal como poucas
vezes estiveram em outros momentos de suas vidas.

Ainda com os olhos lacrimejados, se aquietaram,
e, felizes, perceberam o próprio tempo caminhando,
lentamente, até se ausentar do comodo deixando-os a sós
                 - estavam, então, suspensos no presente.

Desabidos e desimportados com a duração daquele instante,
ainda escorados um no outro - abraçados -, puderam,
então, contemplar a eternidade que compuseram:

                                                em silêncio
continuaram ouvindo a memória da sensação
de inda rirem, rirem e rirem - juntos.



Rio de Janeiro, 18 de junho de 2016.

domingo, 8 de maio de 2016

# O corpo das memórias


A memória não precisa de narrativa coerente, precisa de corpo.

Narrativas fazem consciência, luz de pensamento, lastros de cultura.
Mas pensamento também é sombra, e é muito mais não-consciente.
Como um antigo habitante desconhecido, mas sempre presente,
a memória habita o corpo na maneira como o é.

Narrativas são efeitos postos como causa.
Na origem, na gerência e na contenção de toda memória,
a vida está no corpo. Não há memória desencarnada.

Narrativa é ficção e com tal é potência.
Memória é afeto e como tal só pode ser corpo.
A nos é muito difícil ver, porque o corpo não faz distinção;
ele é na medida em que está sendo muitas coisas 
ao mesmo tempo e o tempo todo
                                – sendo nele inclusive memória.


Rio de Janeiro, 08 de maio de 2016.