sexta-feira, 20 de novembro de 2015

# Estrelas com asas



Tem som de amanhecer a lembrança da sua voz
Tem luz de flor as lembranças dos seus olhos
Tem cheiro de cantiga as lembranças dos seus toques
Mas são só lembranças, cada vez mais,vagas e distantes

Sua tristeza se confundiu com seu corpo e decidiu por ele parar seus pensamentos
Fez furos nas suas ideias e confundiu a ordem das suas palavras

O amor que você tinha ancorado naquele homem ainda estava ali, mas
Você, acho, que nunca percebeu que ele era barco e não cas;
Talvez você soubesse, mas evitava de falar pra não virar verdade.

Você queria parar em alguém, mas todos paravam pra se alimentar em você -
tanto seus filhos como aquele que em você os colocou.

Todos diziam: "Você é madura e o escolheu."
Mas eles só entendiam a escolha como concessão; não o sabia como visão.
Como estratégia esperançosa de ver realizado o sonho sobre o corpo do outro; afinal só aquilo que não é pode vir a ser.

Sete anos desde que você virou uma memória escorregadia; às vezes choro hoje pelo que não soube lamentar na época.

Seria hoje um dia de parabéns
- se você estivesse aqui de corpo físico.
Mas pode ser dia de parabéns
Mesmo que você ainda seja só meu corpo de memória.

Sobre a vida e a morte da minha mãe:
estrelas com essas me ensinam até hoje sobre ausência.

- Boa noite, mãe!
- Boa noite!
- Dorme com Deus.
- Você também!
- Amem!


Rio de Janeiro, 20 de novembro de 2015.

sábado, 27 de junho de 2015

# Sobre a causa e as lutas


Desculpem me alongar... mas vi alguns argumentos que me soaram tortos.

Coloriram fotos de crianças desnutridas na Africa e legendaram assim: "Quando a causa for essa, me chamem que eu participo". Poxa, o que posso dizer quanto ao que sinto ao ver isso?

Queridos, compreendo esse argumento. Mas ele é muito superficial. E, me parece ser, um tentativa - medrosa - de que as coisas não se movam de uma maneira diferente de como se movem hoje.

Cada um, sem dúvidas, tem o direito de se filiar a causa que quiser. Mas, infelizmente, uma das estratégias mais utilizadas para desqualificar a luta de algumas minorias é a hierarquização das causas (quando se diz: "essa causa é melhor ou mais importante do que a outra"). Ou ainda, a desvalorização das causas quando tentam inverter a relação entre oprimidos e opressores (dizendo: "gays são heterofóbicos", "negros são tão racistas quanto os brancos", "as feministas são anti-homens", [onde estou dizem: "surdos são puristas e excluem os ouvinte se fechando em guetos").

Alertar para causas urgentes é realmente muito importante. Trazer visibilidade para a existência e urgência do direito a vida de cada pessoa por de traz das causas é tão importante. E, esse sim, é o objetivo central. Mas uma causa não deve esvaziar a luta e a causa dos outros para se fazer mais forte. É como se disse que o direito da vida desses é mais importante do que daqueles.

Vejam, essa é a lógica do empoderamento por opressão. Expandir-se não deve ser mais uma conquista construída com base na diminuição dos outros.

Isso de compreendermos as lutas como questões de mesmo valor talvez seja um estágio para o qual todas essas lutas um dia começaram a caminhar. Pois - por mais que pareçam contraditórias entre si - todas falam do direito a gerência e construção da própria vida. Todas as causa levam - ou deveriam levar - as pessoas a compreenderem que a única superação válida é aquele em que superamos a nós mesmos (e não só de modelos exteriores).

domingo, 17 de maio de 2015

#Futura antiguidade ®



Sempre que eu vejo imagens de um Brasil antigo eu fico imaginando duas coisas:

1º - é bom viver hoje e ver o quanto que as coisas que foram plantadas em outro tempo mudaram e chegaram a ser como são agora, amadurecidas - evoluídas em si e para além delas.

2º - futuramente o tempo que eu vivo será antiguidade para as novas gerações e eu não verei as coisas que estão sendo plantadas agora atingirem estados mais maduros, transformados em si e para além de si em novas criações.

Flerto, então, com uma ideia de imortalidade fundamentada no desejo de adquirir conhecimento por apreciação. E, sei bem, não sou o primeiro homem a pensar assim.
Inspirado pela "A vida é um sopro" - uma "bioarteografia" de Oscar Niemeyer



Rio de Janeiro, 17 de maio de 2015.

domingo, 19 de abril de 2015

# Mô verse ®


Inspirar fundo...
expirar suavemente...
dar o primeiro passo...
o primeiro gesto,
          o segundo,
                  o terceiro...

Sentir o vento acariciar o corpo
como quem se move entre finos
lençóis pendurados em um
mar de varais ao vento.

Mover-e suavemente,
          e mover-se,
              e mover-se,
                  e mover-se
                     e amor ver-se,
                        e se mô visse...
                            ele me veria,
despretensiosamente, existindo
sendo passo de dança.

E eu que me verse o amor em
gestos desimpedidos - eu que me verse.

Girar até que a mesnte desça ao corpo.
Até que eu desacredite na ordenança da
razão e me desfaça em mim mesmo.
Me dilua em gestos: supere a si mesmo!
Ultrapasse a si mesmo!

Descobri ser as medidas do mundo.

Rio de Janeiro, 19 de abril de 2014.