terça-feira, 26 de abril de 2016

# Objeto de desejo


Quando se apaixona muitas vezes o amor nada
mais tem a ver com os preconceitos e expectativas
que preestabelecem critérios de aparecia.
Amar se torna, então, algo em si.

A luminosidade do primeiro fogo a tudo embeleza.
Mas quando esse fogo se apaga leva parte de
sua  força embelezadora consigo, se esvanece
tonando toda beleza inicial relativa.

Olhamos, olhamos e insistimos em olhar,
mas não está mais ali quem tanto nos tirava de nós.
Vemos e continuamos ali, pés no chão - os mesmos.

Esse é o instante exato no qual a beleza de
quem nos acompanha deve ser reaurorizada.
A forção do amor maduro tem mais a ver 
com a des-cisão que atualiza a juntura
do que com a busca de um novo "mesmo" amor.

Descobrimos então que não é o nosso amor pelo
outro talvez o que faz a beleza existir mesmo depois
do fim da primeira paixão, mas sim a maneira
como nos percebemos quando vemos que o outro
ainda nos ama mesmo sem luminosidade, mesmo
sem fogo aparente que me faça mais belo.

Pra mim, que já amei muita gente, lugares e ideias,
encontrar uma forma pura de amor teve a ver
com de repente me perceber sendo amado
- sem precisar pedir, insistir ou luta pra isso.

Sendo amado em meio as sombras de uma paixão 
que já havia partido - apagado, amadurecido em
temporalidades dessas que os relógios não medem.

Somos impelidos a manter relacionamentos pelo
quanto demonstramos continuarmos amando alguém.
Mas somos também esquecido que o único motivo
pra amar alguém é se saber amado por essa pessoa.

O amor tem mais a ver com uma beleza condicional.
Uma beleza que não é atribuída ao objeto que se ama
antes que se perceba sendo amado por ele.

Rio de Janeiro, 27 de abril de 2016.

# Um preciosismo desmedido


Enquanto você dormia, eu te aprendia 
Na forma pura do acontecimento sensível.
Enquanto você dormia, eu tive tempo de 
Amadurecer meu amor pela admiração
que fiz você caber em mim
              - tudo isso enquanto você dormia.

Quatorze horas de sono leve vivendo o "entre"...
O entre de uma grande janela entreaberta
O entre a estrada e o palácio, 
O entre uma cama e uma árvore,
O entre todos os seus travesseiros mofados
             - cada qual com um nome próprio -,
                       o entre
                       meu corpo e o seu.

Na primeira noite seu corpo suado e cheio
da poeira trazidas de um passado no sul.

Na segunda noite um corpo recém chegado,
banhado, aparentemente indiferente e nu
            - me tateando com olhos entre abertos.

Tantas vezes eu dormi com você
Enquanto você dormia.
Quando acordamos eu já te amava mais
Do que você podia entender o motivo.

Daí começou seu jogo:
me fez ausência, silêncio e indiferença.
Ateou seu fogo até me fazer duvidar.
"- Isso tudo é um teste!" - você disse.

Minhas escolhas eram versadas
para parecerem decisões suas
- um beliscam em massagem, uma
reclamação em preciosismo desmedido,
um convite pra dormirmos juntos em
prova da minha falta de compreensão.

Não dormimos mais juntos.
E eu sai achando que tinha errado.
Achando que eu era "ansioso demais",
"alguém que não sabe ouvir não".

Mas hoje me parece mais claro:
eu dormi com você enquanto você dormia.
E quando achei que você estava acordado
você ainda dormia...

A dor se foi quando eu percebi que
Era eu quem sempre esteve acordado.

Rio de Janeiro, 10 de abril de 2016.

# Imagem do pensamento 02

Não se sabe o que eh o amor
até você ser amado
                 por alguém
                          que você ame.

# imagem do pensamento 01


Não há amor possível que não seja derivação do amor próprio.

terça-feira, 19 de abril de 2016

# Nenhum motivo aparente


Inspirar-se fundo...
expressar-se suavemente...
dar o primeiro passo,
o primeiro gesto,
                o segundo, o terceiro...

sentir o vento acariciar o corpo como quem
se move entre finos lençóis pendurados em
um mar de varais ao vento.

Saudades da dança
sem nenhum motivo aparente.
Assim, sem pré-existências...
                  ser autodeterminante!


Rio de Janeiro, 19 de abril de 2016.

sábado, 9 de abril de 2016

#Garotas Mágicas (ou Igōru-kun)


A vida era corrida e suas formas simples
A descrença já havia enraizado como forma de autoproteção
A vida era o que era: assim
– até o universo desquerer a continuidade.

De repente um sorriso luminoso em meio a bexigas azuis
“Sorry not sorry”, erguia-se um emblema,
Barba descontinuada, cabelos bagunçados...
Seus olhos maravilhosos e cheios de profundidade.

Ohayou Gozaimasu!

Disseram: A felicidade pode vir com nome e sobrenome!
Achei bobagem; até você chegar na forma de um sorriso.
Eu te aviso: "Vou falar uma parada bem nerd, hein!"
Você responde: "Gosto assim, vamos lá!"

Um rosto luminoso tal qual ainda não tinha visto.
Eu te conto o meu melhor saber, dito da forma mais bonita
E você continua ali – sua atenção me ouvindo falar
Sobre minhas verdades foi meu primeiro amor por você.

Konnichiwa!

Um abraço despretensioso, uma cabeça no peito
Meu olhar para cima e um leve e confortável primeiro beijo.

Perdi a vergonha de ser kitsch do seu lado.
Tomei você enquanto você tomava chá de maçã,
Quis andar de mãos dadas – barbado com barbado, gordos.
Quis leves beijos sem motivo e longos afagos de despedida.

Você me levou a vergonha de me achar inapropriado
Colocando no lugar o conforto da sua presença,
A impressão da memorias do seu corpo no meu,
Sua mão pesada na minha nuca e mais pimenta no macarrão.

Konbanwa! – ou melhor: Oyasuminasai!

Uma promessa de reencontro, um compromisso firmado
A espera do dia de te rever, um vem e vai de expectativas
Às vezes querendo muito e em outras querendo ser o mais
cauteloso possível na expansão das vontades
– para não se machucar caindo por correr demais.

Te buscar, te encontrar, te rever – um sorriso com aceno de mãos.
Seu andar engraçado, seu olhar mais uma vez aceso e em mim.
Sem saber ao certo se devo te beijar ou não, um abraço discreto.
Um reencontro, um bom almoço, um bom papo
Um quarto escuro, silhuetas e canções de abertura de cartoon.

Uma madrugada de descobertas por meio de gestos sutis.
Um amanhecer compartilhado, mais investigações táteis sobre o
instante presente, sobre a presença de se encaixar nas brechas do tempo,
sobre o presente da presença um do outro.

O abandono de qualquer pontualidade se justificou em si.
A conquista do corpo do outro, da sua própria entrega e dos limites ultrapassados.
Tudo se explicando em si, sem necessidade alguma de apêndices...
Sem o preciosismo do medo de poder não ter mais isso amanhã.
Mahō shōjo wa sekai o tasukemashita!

E você está ali sozinho, compondo toda multidão de muitos eus
E de repente alguém está também, instaura-se uma dualidão
Numa lógica em que o outro não é a outra metade perdida
Mas o canal perfeito de nossa própria expansão.

Depois de você não precisei mais ter medo de virar semente de rancor.

Desde que você chegou minha jóia da alma brilha mais forte.

Rio de Janeiro, 09 de março de 2016.