sexta-feira, 6 de setembro de 2013

# Se tornar mundano®


Buscar um conselho como quem busca um apoio no ar,
como quem busca evitar a queda a todo custo.

Mas porque não cair?
Quem chega ao chão tornar-se-á mais forte
em outros apoios que a verticalidade não sabe.

Teme a queda todo aquele que ressente
o afiado olhar razoável que gerência
os sistemas de mundo que insistem
em aumentar o mundo por refluxo de minimação
– como coisa que até se saboreia,
mas não se engole de vez;
daquilo que não se digere por medo
do que vá se tornar mundano.

# Me desfiz, mas não foi bom ®


Me desfiz, mas não foi bom.
Porque quando retornei a mim
Já não estava lá aquele que
Eu acabará de deixar ali.

As coisas que se desfazem nunca
Retornam a si tal como se deixaram.
Mas isso ninguém me contou.

"- Hoje me desfiz!", assim pensava ter feito
Mas enfim posso dizer: "- A desfeitura sempre
me refaz, e ao me distanciar de mim mesmo
pelo grau de atenção dado a essa figura,
quando retornar a mim Já não estarei mais ali.”

# Rabisco ®

Escrevi um monte de coisas que
não pareciam ter função alguma
isso porque não tinha sentido mesmo.

Era uma escrita afundada nas coisas
invisíveis do pensamento e só tinha o
objetivo mesmo de não me deixar
adoentar por àquilo que não sabia dizer.

Me parece que a palavra é
boa nisso de nada significar.

Me soa que toda palavra aponta pra
todas as direções de sentido
Até que a gente lhe põe arreios ela
finge que só sabe ir numa direção.

Mas gosto mesmo da palavra pura,
quiçá daquela que produza algum
rabisco verbal
– linhas retas me fazem vertigem.

# Objetos antigos ®

Guardo objetos antigos pelo
simples prazer do desuso.

Quando ás revejo,
essas coisas, elas me
são de novo num alguém
diferente que agora sou.

Guardo as coisas pelo
prazer de resser inaugural no
retorno àquilo que disfui são.

# Verdade ®


Verdade é tudo àquilo que bem se adequa ao meu corpo.

# Quem disse que não pode ser assim? ®


Estou lançado no mundo
cheio de dores, cheio de vida; e
quem disse que não se pode ser assim?

O que me dói é saber que o amor
tem se desfeito em mim.
O que me alegra é saber que ele
por si mesmo se refaz.
Daí, me parece que um grande jeito pra
se achar é se perder de você mesmo.

São muitas coisas naquilo que sou e
Estou cheio de mais pra saber-me.
Não me lembro onde deixei
Meu guarda-chuva nem a vida
E se chover hoje, não vou saber

Pra onde ir. 

# Das oportunidades


Uma gota derramada, duas, três,
Se derramam os dias
Se desfazem as horas
O que quero ser parece não caber
Na brecha do instante.

Levantar com o sol
Deitar-se a noite
Saber que pouco se fez
Daquilo que se imaginava necessário
Fazer para finalmente ser quem se é
Repetiram-se no meu corpo
As vozes de outras vozes
Fez-se em meus atos
Os gestos de outras mãos.

Mais uma dia, mais sois,
Mais sós e mais noites
E eu ainda não me inaugurei.
Quanto mais de incompetência
Para mudança terei que experimentar
Até vazar o tempo que se retém em mim?

Hoje não deu,
Mas amanhã irei achar a brecha
A parte em mim que não
Contestará a ordem e apenas será.

Hoje não deu,
Mas amanhã eu serei eu mesmo -

Enfim, existir tal como se é.

# Iluminação ou devaneio


Será que minha iluminação é loucura?

Será que a vida não me habita como eu imaginava:
guardada e recolhida no meu interior?

Dor.
A vida é tão pesada, e difícil de ser.
Como é possível ser sem se esquecer de quem se é?

Quando penso que sou, logo me desfaço.

As crianças bem me olham nas ruas e eu as pergunto:
o que vêem em mim?
Qual a minha luz?

Acho que é preciso ser alguma coisa que que ainda não sei.
Não há outros na sala, não há outros as vistas.
É necessário ser sozinho, sem público.


Que inteligência é essa que me esvazia?

# Da leveza do presente


Se satisfazer mais no que faço agora,
No que sou agora.

Parar de aceitar,
Para de conviver com o peso das coisas
Pela crença de uma paga futura.


Pois nada compensará o instante mal vivido.

# SeLêAssim


oqvcsenteqndvcfala?
sintoopensamentoandandodentrodacabeça;
elepassapelalíngua,masnemdeixagosto.

# Do tempo


O tempo é uma coisa que a gente não pega,
porque ele já pegou a gente primeiro.

# Pensamento


O ser e a aparência se permutam.

# Dementado das formas sérias


O excesso de ficção adoece a razão
E assim dementado das formas sérias,
Incapaz de andar em linha reta,
Ficamos inclinados pras disfunções
Incompetentes para o olhar comum
“Infelizes!”, somo chamados
Por sofrer dos prazeres da inconsequência.

Os razoáveis temem
Todo aquele que respondem
Por aquilo de não-ser,
E não compreendem
Como podem ser pelo estado coisal:
Ordenadamente desordem,
Sabidos de esquecimento,
Infinito de ignorância.

Olhar divinatório é coisa de gente fraca
E é necessário ser fraco pra ser poeta
É preciso ser poeta pra refazer o mundo.

# O corpo

O corpo é uma condição que pensa ser estado;
Pouco sabemos do corpo como afeto,
Porque temos medo de nos saber a nós mesmos.
Combinamos que é melhor sabermos por
Ciência e escalonamentos, já que
Saber por experiência pode doer
E fazer não dar a mesma resposta.

O corpo é uma condição que pensa ser estado;
E todo aquele que não o denuncia
Se alimenta do o inverso disso
Coopera para o enraizamento dessa falácia.

# O círculo

O círculo sempre é imaginário
E o poder da criação só é poder
Se é escoamento do saber pelas
Vias (in)visíveis dos afeto.

Os nomes de nada valem
Se não estiverem sustentados
Por um afeto

# Excesso de nomes

Nosso excesso de nomes
Dá esquecimento do
Tempo enquanto matéria

Faz parte do homem naturalmente
Esquecer
Faz parte do homem o esforço de
Lembrar
Mesmo sem saber que
Lembrança não é só o desarquivo de
Memórias

Quando lembramos o que fazemos é
Represença
Voltamos de dentro como se de
Fora
E estamos de novo naquilo que
Fomos

Retomar o pensamento sempre é
Remexer a matéria
E a matéria é só mais um dos nomes do
Tempo.

# Muitas vidas


Não sei se existem muitas vidas, mas de certo podemos ser muitas vidas em uma só, todo o tempo, o tempo todo e ao mesmo tempo. Muitas coisas, conhecidas e desconhecidas naquilo que vai sendo.

# Minha glória e minha queda


Minha descrença nos nomes
É minha glória e minha queda
Lá sempre é solidão
E de lá vem que toda solidão
É estado de primeiridade da vida.

Meu ateísmo nominal é
A queda da minha moral
E isso é minha força.

Atrás de mim um outro que fui
A frente, não mais o que sou
(ou deveria, em respeito aos
meus pais, continuar sendo)
Mas vivi naquilo no qual me desfiz.

Sou acometido de uma
Inomalidade congênita
E isso me provoca uma fervura
Que não sei se é ardência de
Uma sol interior muito incandescente
Ou uma demência febril de
(por imaginação) me fazer sempre
Ser bem mais do que possa
“Realmente” ser.

# Esqueci


Hoje uma memória do passado
me apareceu encarnada nos
mesmos ossos que imaginei ter
enterrado há muito tempo.

Até quando vou achar que esqueci
e parar de esquecer que, na verdade,
quem ocupa o centro do problemas
sou eu?

Até quando vou alimentar essa
teimosia em esquecer, postergar
e amar toda segurança que não
venha de mim mesmo?

A dor nunca veio de outro se não
de mim mesmo e minha incompetência
para razoabilidade daqueles que
esquecem para melhor viver.

# Me inaugurei nas coisas do mundo


Tirei os fones de ouvido e
Hoje ouço menos música
Para ouvir mais o mundo
Descobri a rítmica do barulho
Ouvi com clareza as melodias do silêncio
Daí me inaugurei em coisa assim
Porque nunca tinha sido por essas coisas

E a vida me pareceu ser um sentido que
As palavras são incompetentes para assegurar.
Pensei sobre isso,
mas não achei continuidade
Porque era só isso mesmo.

Só quando despensei
(impulsionado por um gesto
espontâneo de pulmão)
Descobri que eu era feito da
Mesma matéria do mundo:
Não havia diferença entre
Eu e as árvores.

Daí por nudez de palavra
A desordem me maravilhou.
E vi que, por debaixo das saias,
O sentido ainda era puro
(e por isso me desejava corrompê-lo).

# Do nome de Deus


Deus é grande e não cabe em palavras, por isso, é necessário vivê-lo como estado inominável de força. Servos, somos de nós mesmos. De Deus só se pode ser amigo.

# A mudança me insiste


O ser sempre é arte porque é invenção
– tanto ou mais do que inventor.
Dada a atravessagem do pensamento
Tudo me parece ser dispersão;
Ainda que orientada, entornagem.

Visto grau de certos pensamentos
Me parece que tudo dá-se como ficção.
Ainda que real, invenção.

O medo de toda possibilidade não
assegura o homem de não se desfazer
Apenas retarda o processo
Pois de tanto concentrar-se em não ser
Toda possibilidade de vida,
Restritamente se imagina ser
até romper e vazar

Vendo se espalhar pelo chão
Muito do que se negada ser -
Tudo ali, ao mesmo tempo
O tempo todo

A mudança insiste o ser até que ele
cansado não saiba mais voltar para si
E então se desfaça.

# Pensei


Cansei de ser potência, quero ser realização!

# Constato que se beijam


Beijar ao ar livre - que absurdo!

# Profundidade exterior

A visibilidade é o primeiro direito que dispara outros.
Ser invisível é duro de mais, mas é o que liberta
a alma para escolher suas próprias direções.

A visibilidade é o primeiro aceno que nossa existência de corpo dá.
Ser invisível é leve de mais pra quem sente as esporas
do tempo nos insistindo as ancas.

Se pudesse escolher eu serie mesmo quem eu sou,
talvez com um pouco mais de fraquezas pra razão
e mais forças para manter os olhos abertos enquanto se sonha.

Visibilidade é coisa que não se reclama,
mas conquista-se com sabiência daquilo que é

mais invisível e profundamente exterior.

# A vaza dos rozoáveis

As coisas desprezíveis guardam em si
a vaza das lógicas que os razoáveis
não conseguem sustentar.

Incompetentes para os deslimites,
criaram a moral afim de demonstrar
que força é controle, e que toda conquista
é fruto do potencial individual
para essa ordem exterior.

É necessário dormir para saber a verdade
E estar acordado para sonhar
Entrever a vida é dom daqueles

Aquém falta razão.

# Preguiça de gente

Acho que minha preguiça de gente
Me fez ser um bom admirador delas.
As sei com destreza.

Um pousar de olhos:
sua palavras,
seus gestos e o
peso do ar ao seu redor,
suas vidas expressas em pequenas
repetições que me mostram
sua tentativas de o mesmos serem.

Suas reincidências me encantam,
vejo nelas toda a fuga de suas
incontroláveis diferenças.

Mas sei, ao mesmo tempo que as
observo sou visto e nem sempre sei a
amplitude do seu campo (interior) de visão.

Gosto das pessoas,
mas me desapego delas e
pelo receio de não saber como agir
me alimento da contemplação
daquilo que nelas se excede.

Não sei ao certo do que tenho medo,
não que eu me amedronte com
a vida sócio- fictícia dos outros.
Mas digo medo pois algo me limita
naquilo que os vejo, algo
impondo uma fronteira invisível
aos olhos, mas sensível aos poros.


Já me bastam os meus próprios excessos.

# Com Sentimos

A passividade emocional é uma permissão.
Os efeitos daquilo que fizeram (contra) nós

São o que são pelo modo como os "com-sentimos".

# A grandeza dos homens

A maior grandeza dos Homens é ter fim...
Temo por todo aquele que deseja se eternizar

Em algo que não seja ele mesmo.

# Mais ou menos intensidade

A dor potencializa o ser.

Daí sabermos mais por dor do que por alegria.

A felicidade é mais incompetente em
Criar laços do que o sofrimento
– muitos escolhem sofrer juntos
Ao invés de ultrapassar, pois ao fim
Desejam apenas proximidade.

Tudo é mais ou menos
Tudo é soma, transbordamento
Tudo é falta, subtração
Mais ou menos intensidade

Nunca mais ou menos feliz ou triste
Sempre inteiramente mais ou menos

É necessário expandir-se
Encaixando nosso desejo nas brechas dos acontecimentos
E assim usar as forças do movimento do mundo ao nosso favor
Porque não somos pré ou pós mundanos
(e nunca seremos).

Pois o mundo é instante e nos somos o tempo.

# ABC...

A
BOA
COISA
DADA:

É
FELICIDADE
GRATUITA,
HORA
IGNORADA.

JARDINS
LAMENTADOS,
MORNOS,
NADA ORNAM.

PORQUE
QUANDO
RECALCAM
SEM
TUDO
USUFRUIR,
VIRAM
XICARAS

ZERADAS.