Compartilho aqui uma reflexão a partir de um vídeo com uma pregação de um pastor a respeito de como conversar sobre igreja com seu "amigo" gay. Essa é a reposta que dei a pessoa que, acredito com sinceridade não queria me ofender, me enviou a mensagem.
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Olá,
Primeiramente agradeço a lembrança e o desejo de me compartilhar algo que vc espera que me faça bem.
O vídeo me pareceu muito bonito. O rapaz fala bem, ótimo slide (bem estruturado em forma e conteúdo), iluminação, gravação, música emocional no final na última parte da palestra. Ideias argumentativas muito bem alinhadas e apresentadas.
Mas infelizmente é, mais uma vez, um texto benevolente. Ele trata com "amor" algo que condena e não aceita. O que é isso? Uma estratégia para "ganhar almas contemporâneas"? Me parece um caminho para reformular a imagem da igreja, para fazer da uma instituição igreja um local mais atento as questões das pessoas desse tempo histórico em que vivemos, Um movimento muito compreensível que parte de uma juventude já bem assimilada dos ideais do nosso tempo atual. Afinal aceitação e inclusão são as moedas desse primeiros anos do século XXI. Uma palavra que atualiza o marketing eclesiástico protestante colocando-o como algo positivo na atualidade. Algo que até demorou um pouco... final a instituição igreja sempre esteve a frente do seu tempo em inteligência linguística, comercial, pedagógica, filosófica e etc.
No fim das contas ainda é um discurso de ódio travestido de tolerância. Demoniza (ou pecaminiza) a homossexualidade como se ela fosse um comportamento e não um traço identitário. Faz isso achando que não fere a pessoa homossexual. Afinal: "Deus abomina o pecado, mas ama o pecador". Mas ser gay não é um comportamento e nem uma escolha - como diz o pastor no vídeo. Não está no mesmo escalão das antivirtudes mentira, avareza, perversão, idolatria. Pessoas gays podem fazer essas coisas como as heteros tbm - elas não estão ligadas entre si assim como a homossexualidade não está ligada a elas. Essa é uma lista de desvios morais, a homossexualidade não é um desvio moral fruto da natureza pecaminosa originada no Edem.
A benevolência é um estratégia colonizadora usada há muito tempo. Ela faz quem está no local de poder se sentir melhor consigo mesmo pq está se vendo ser bondoso com o outro em local de inferioridade. Mas essa é a questão difícil de aceitar, ser gay não é ser inferior em relação a ser heterossexual. Esse é uma entre muitas ignorâncias que o pastor - se portando como alguém que estudou - diz no vídeo. Diferente do que ele diz, por exemplo, ser passivo não significa ser afeminado. Assim como ser afeminado não significa ser gay.
Agradeço de coração o envio do vídeo pq sei que vc fez por carinho. Gostei de algumas coisas como te disse no iníco dessa minha repostas. Assisti, inclusive, achando que o debate que esse vídeo propunha chegaria ao cerne da questão: Ser gay impede alguém de ter uma vida com Deus ou de ser Salvo?
Mas não chega explicitamente nisso, não. Implicitamente ele dá uma resposta sim, e essa resposta é dada quando ele diz pros outros crentes que eles também são pecadores não deveriam julgar as pessoas gay - afinal pq ser gay é a mesma coisa do q ser adultero, fofoqueiro, mentiroso, mulherengo ou pervertido. Qnd ele faz isso ele não está entendendo que a experiência de ser gay é identitária e não comportamental.
Por isso esse não é um discurso de amor. É um discurso religioso de ódio atualizado pelas demandas sociais contemporâneas, uma fala travestida de benevolência por uma estratégia discursiva e pseudointeligênte de aceitação.
Compreendo e repeito que para os "clãs" religiosos os preceitos e dogmas textuais considerados centrais não devam ser negociados. Acredito e respeito isso mesmo, não só pro cristianismo, mas para muitas outras religiões que eu conheço. Por isso compreendo o lugar de fala desse pastor. Me preocupa, porque a benevolência tende a ter efeitos de longo prazo ainda piores do que a descriminação explicita. Geram, por exemplo, um acalanto aos corações de pessoas gays que sofriam muito por não serem aceitas.
Essa fala ensina a instituição igreja a aceitar as pessoas gay, mas não ensina as pessoas gays a se aceitarem. Pq não muda o centro do discurso religioso de ódio contra os gays: quem ela são é fruto do pecado, logo é fruto da ausência de Deus. Maquiar isso só vai gerar mais sofrimento a longo prazo. Pois agora a igreja nos aceita, mas reforça sempre que não integralmente - não é uma aceitação 100%.
Antes o sofrimento explicito e objetivo causado pela não aceitação podia levar ao rompimento com a instituição religiosa - e com o tempo levava a compreensão da diferença entre Igreja e igreja. Mas com um discurso assim logo veremos um sofrimento psíquico de longo prazo. Pois as pessoas divergentes dos modelos religiosos permaneceram enclausuradas em instituições que agora às aceitam, mesmo que não integralmente. Isso por causa da máscara discursiva que encobre o ódio (da não aceitação das vidas gay) no cerne dos ideais dessas instituições.
Desculpe me alongar no comentário.
Mais uma vez agradeço a lembrança, o vídeo e a oportunidade de refletir sobre essas coisas.
Grande abraço e muitas felicidades pra vc e sua família.
Rio de Janeiro, 18 de junho de 2018.
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