"Assuma o ponto final, não finja que é uma vírgula.
Não dê trabalho de ressurreição a quem dividiu
a vida com você, dê a verdadeira causa do óbito."
Fabrício Carpinejar
Abri os olhos no escuro e vi o infinito,
um tempo desregrado escondido entre os
segundos, uma vaza de instante;
lá não há presente, nem futuro ou passado,
pois o tempo não se aceita conformar em linha.
Lá o tempo é encarnado e só existe como corpo.
E o corpo me dizia segredos, revelações;
me falava, como profeta, das obviedades
que eu fingia não ter vivido.
Fechei os olhos e não havia mais tanta escuridão
e, no interior do pensamento, eu ouvi e vi a parte
misteriosa do que precisava ser entendido.
E dentro do ponto final alguém gritava:
"Pior do que se ver mergulhado no desamor
é não ter mais dentro de si o desejo de querer
continuar amando alguém; ou não mais ver, nos
olhos do amado, o desejo de tentar
continuar te amando!"
"Acabou" se torna uma palavra desapropriada,
uma navalhada que parte em dois o que pareci ser,
aquilo que prometeu ser e não deixar de ser, Um.
"Acabou" é sentimentalmente descabida, despudorada,
cheia de verdade, cheia de nudez, vulgar em relação
ao tempo vivido junto.
"Acabou" era a única coisa que precisava ser dita,
mas será, por polidez, escondida ao redor
de outras palavras cuspidas em espirais; eufemismos.
Ela não será dita,
por mais que seja a roupa mais justa pro sentimento,
pra falta, que aflora endesertando todo jardim.
Ao redor dessa palavra é só silêncio,
pois não ha nada mais para dizer; mesmo que ela
não tenha sido dita, foi ouvida.
Rachou,
Vazou,
Entornou,
Reduziu,
Está vazio...
Abra os olhos e veja: está vazio!
Agradeci gentilmente ao tempo
e acordei - finalmente - em mim.
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