terça-feira, 26 de abril de 2016

# Um preciosismo desmedido


Enquanto você dormia, eu te aprendia 
Na forma pura do acontecimento sensível.
Enquanto você dormia, eu tive tempo de 
Amadurecer meu amor pela admiração
que fiz você caber em mim
              - tudo isso enquanto você dormia.

Quatorze horas de sono leve vivendo o "entre"...
O entre de uma grande janela entreaberta
O entre a estrada e o palácio, 
O entre uma cama e uma árvore,
O entre todos os seus travesseiros mofados
             - cada qual com um nome próprio -,
                       o entre
                       meu corpo e o seu.

Na primeira noite seu corpo suado e cheio
da poeira trazidas de um passado no sul.

Na segunda noite um corpo recém chegado,
banhado, aparentemente indiferente e nu
            - me tateando com olhos entre abertos.

Tantas vezes eu dormi com você
Enquanto você dormia.
Quando acordamos eu já te amava mais
Do que você podia entender o motivo.

Daí começou seu jogo:
me fez ausência, silêncio e indiferença.
Ateou seu fogo até me fazer duvidar.
"- Isso tudo é um teste!" - você disse.

Minhas escolhas eram versadas
para parecerem decisões suas
- um beliscam em massagem, uma
reclamação em preciosismo desmedido,
um convite pra dormirmos juntos em
prova da minha falta de compreensão.

Não dormimos mais juntos.
E eu sai achando que tinha errado.
Achando que eu era "ansioso demais",
"alguém que não sabe ouvir não".

Mas hoje me parece mais claro:
eu dormi com você enquanto você dormia.
E quando achei que você estava acordado
você ainda dormia...

A dor se foi quando eu percebi que
Era eu quem sempre esteve acordado.

Rio de Janeiro, 10 de abril de 2016.

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