Enquanto você dormia, eu te aprendia
Na forma pura do acontecimento sensível.
Enquanto você dormia, eu tive tempo de
Amadurecer meu amor pela admiração
que fiz você caber em mim
- tudo isso enquanto você dormia.
Quatorze horas de sono leve vivendo o "entre"...
O entre de uma grande janela entreaberta
O entre a estrada e o palácio,
O entre uma cama e uma árvore,
O entre todos os seus travesseiros mofados
- cada qual com um nome próprio -,
o entre
meu corpo e o seu.
Na primeira noite seu corpo suado e cheio
da poeira trazidas de um passado no sul.
Na segunda noite um corpo recém chegado,
banhado, aparentemente indiferente e nu
- me tateando com olhos entre abertos.
Tantas vezes eu dormi com você
Enquanto você dormia.
Quando acordamos eu já te amava mais
Do que você podia entender o motivo.
Daí começou seu jogo:
me fez ausência, silêncio e indiferença.
Ateou seu fogo até me fazer duvidar.
"- Isso tudo é um teste!" - você disse.
Minhas escolhas eram versadas
para parecerem decisões suas
- um beliscam em massagem, uma
reclamação em preciosismo desmedido,
um convite pra dormirmos juntos em
prova da minha falta de compreensão.
Não dormimos mais juntos.
E eu sai achando que tinha errado.
Achando que eu era "ansioso demais",
"alguém que não sabe ouvir não".
Mas hoje me parece mais claro:
eu dormi com você enquanto você dormia.
E quando achei que você estava acordado
você ainda dormia...
A dor se foi quando eu percebi que
Era eu quem sempre esteve acordado.
Rio de Janeiro, 10 de abril de 2016.
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