Uma gota derramada, duas, três,
Se derramam os dias
Se desfazem as horas
O que quero ser parece não caber
Na brecha do instante.
Levantar com o sol
Deitar-se a noite
Saber que pouco se fez
Daquilo que se imaginava necessário
Fazer para finalmente ser quem se é
Repetiram-se no meu corpo
As vozes de outras vozes
Fez-se em meus atos
Os gestos de outras mãos.
Mais uma dia, mais sois,
Mais sós e mais noites
E eu ainda não me inaugurei.
Quanto mais de incompetência
Para mudança terei que experimentar
Até vazar o tempo que se retém em mim?
Hoje não deu,
Mas amanhã irei achar a brecha
A parte em mim que não
Contestará a ordem e apenas será.
Hoje não deu,
Mas amanhã eu serei eu mesmo -
Enfim, existir tal como se é.
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